
Zé Ramalho (1978) - Zé Ramalho
O álbum imediatamente seguinte, o admirável A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu (1979) cuja capa mostrava o artista cercado por uma “diabinha” e por José Mojica Marins (o famigerado Zé do Caixão) tornou-se um disco cultuado por muitos. Mas o cantor e compositor ZéRamalho já havia deixado muito claro o seu talento, gravando algumas de suas mais representativas e irretocáveis canções no primeiro disco solo.
Com o fim da fase áurea da MPB setentista – e um pouco antes da explosão do rock 80 – uma nova leva de cantores nordestinos deu início a uma verdadeira “invasão”. Migrando de seus estados natais para o eixo RJ/SP, os cantores Fagner e Elba Ramalho se sobressaíam na disputa pelo topo das paradas. Alceu Valença se estabelecia e reinventava tradicionais ritmos nordestinos nos estúdios, muitos anos antes das fusões de rock, maracatu e eletrônica do Mangue-Beat.
Já a carreira do paraibano Zé Ramalho parecia oscilar. Bem menos visível na mídia que a de um Belchior, por exemplo. Sua trajetória artística foi prejudicada por problemas de ordem pessoal (especialmente pelo seu envolvimento com drogas), e o cantor lançou vários discos irregulares. Mas pelo menos Zé Ramalho (1978) e A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu (1979) são fundamentais.
Zé não era marinheiro de primeira viagem. Anos antes havia gravado, ao lado do pernambucano Lula Côrtes, uma obscura e genuína obra-prima, o psicodélico Paêbirú (1975), disco que teve quase todas as sua cópias destruídas quando uma enchente do Rio Capiberibe invadiu a fábrica em que estava sendo prensado. Lendário e desconcertante, Paêbirú é um caso único da música brasileira: trata-se de uma alucinada fusão de ritmos nordestinos, sons da natureza e as influências mais lisérgicas dos sixties.
Em 76, Zé Ramalho ia de gravadora em gravadora com uma fita demo de suas canções debaixo do braço, mas era sempre recusado. Foi preciso que o cantor Raimundo Fagner gastasse alguma saliva com a diretoria da CBS para que o trabalho do amigo merecesse a devida atenção. Em 1977, o cantor foi contratado e deu início a um circuito de shows pelo Rio. Em novembro, entrava nos estúdios da CBS com os músicos. Dentre eles, o tecladista inglês Patrick Moraz, que gravava um disco no Rio, e o ex-Mutantes Sérgio Dias, responsável pelo impactante solo de guitarra em “A Dança das Borboletas”. Todos toparam tocar de graça, entusiasmados pela oportunidade de gravar ao lado do paraibano em seu disco de estréia.
E que disco. Com uso de percussão substituindo a bateria, e pela sua notável qualidade sonora, um “cruzamento da mais funda raiz nordestina, herdeira dos cantadores do sertão, com a verbosidade eletroacústica do folk-rock”, como definiu o crítico Marco Antonio Barbosa, o disco abria com “Avôhai”: “Um velho cruza a soleira/ de botas longas/ de barbas longas/ de ouro/ o seu colar” e prosseguia com sua letra de um lirismo visionário à Bob Dylan.
“Vila do Sossego” com um coro feminino (providenciado por Elba Ramalho) que parecia caído do céu e a letra surpreendente pela riqueza de imagens: “Meu treponema não é pálido/ Nem viscoso/Os meus gametas se agrupam/ No meu som”.
A bela “Chão de Giz” talvez seja uma das mais líricas canções de amor já gravadas neste país. “Eu desço dessa solidão/ espalho coisas/ sobre um chão de giz”. De um romantismo sutil e sem qualquer rastro de sentimentalismo: “Não vou te beijar/ gastando assim/ o meu batom”. Já “Bicho de 7 Cabeças” é um belíssimo número instrumental. Mais conhecida na versão ao vivo de Geraldo Azevedo, a canção se destaca como um dos muitos pontos altos do disco.

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